Capítulo 14: O Echo do Mago
Guilherme tossiu, tentando afastar a sensação de choque de código que ainda vibrava em seu peito. Ele estava de pé na Sala de Controle Core, uma câmara limpa e fria, onde o chão de metal liso substituía a geometria quebradiça dos labirintos. A dor do Dano Constante Residual permanecia, um lembrete constante de que o Jogador nunca o deixaria em paz, embora essa dor agora servisse apenas para aguçar seu foco.
O epicentro do controle não era um trono de fantasia, mas um painel de interfaces ao redor de um altar. No centro, a tela de monitoramento flutuava, maior e mais robusta do que a versão provisória que ele havia danificado antes. Essa tela irradiava um brilho branco-azulado, exibindo um stream incessante de dados em tempo real.
Guilherme ignorou o impulso inicial de chutar os painéis ou agredir o altar central. A violência física tinha seu lugar no jogo, mas aqui, no Core, uma agressão não planejada resultaria apenas em mais punição e debug. Ele precisava atacar o Jogador em seu idioma nativo, que era o código.
Ele se aproximou da tela, forçando os olhos a processar o fluxo rápido de informações. O stream rolava verticalmente, mesclando dados de telemetria, logs de execução e sequências lógicas de gameplay. Era um caos controlado, a prova de que o Jogador estava agora operando na defensiva, protegendo a estabilidade.
Guilherme escaneou as linhas de código com pressa. A maioria era lixo de log, confirmação de assets purgados, e protocolos de estabilização do mapa. O Predador havia se ido, e a estabilidade do labirinto estava sendo forçada de volta.
Ele sabia que o Jogador, sob a pressão da falha do Predador, não teria tempo de limpar todas as informações vitais. Havia um segredo no sistema, algo que o Jogador havia censurado com violência no Capítulo 1 e novamente no casarão.
Seus olhos pararam em uma seção do stream de dados onde a cor mudava sutilmente. A maior parte do código era cinza e branco, mas ali, por um instante fugaz, uma linha de texto piscava em um verde anômalo, diferente daquele que dominava a interface. Era uma assinatura digital sutil, mal disfarçada entre dados irrelevantes.
Essa sequência não parecia um log de erro normal. O formato da linha de dados, a brevidade e o fato de ela desaparecer rapidamente, substituída por algo inocuo, diziam que o Jogador havia tentado mascará-la. Era um ponto cego imposto no fluxo de informações.
Guilherme estendeu a mão na direção da tela, não para tocar, mas para apontar. Ele sentiu um arrepio. A sequência verde que ele estava isolando, embora alfanumérica e estranha, parecia falar com a linguagem que o Mago havia tentado usar no início do jogo, quando gritava sobre a “memória do servidor” e o “override”.
O Mago havia tentado comunicar algo essencial sobre a arquitetura do jogo, algo que o Jogador considerava uma falha existencial. Essa linha de código era o echo digital daquelas palavras censuradas.
Guilherme não tinha nenhuma ferramenta física agora, ele havia perdido o fragmento de código corrompido que se desintegrou com o Predador. Tudo o que restava era a sua própria intenção de falha, aguçada pela dor do Dano Constante Residual.
A dor persistente no peito não era mais uma punição que o levava à submissão; se tornara uma matriz de resistência. Cada pontada de dor era a validação de que ele estava avariado o suficiente para causar instabilidade, e isso lhe dava controle. O fato de o Jogador não conseguir eliminar a dor sem desligar o sistema era a sua vantagem.
Guilherme concentrou-se na tela, respirando fundo através da dor que o mantinha alerta. Ele podia sentir o choque residual do contato anterior com o cabo energizado, uma conexão latente entre sua consciência e a lógica do sistema. Ele tinha de transformar sua determinação – a pura e simples recusa em obedecer – em um vetor de ataque.
Era uma tentativa de hack mental.
Guilherme forçou sua intenção sobre aquela linha verde sutil. Era como tentar empurrar uma massa de água com a pura força da vontade.
Ele não estava tentando roubar código, estava tentando desempacotar a informação. Ele queria ver o que o Mago havia morrido para proteger.
A linha anômala piscava em intervalos mais curtos agora, como se sentisse o escrutínio de Guilherme. O Jogador, evidentemente, não havia desligado o monitoramento de sua intenção, o mesmo sistema que detectou sua “intenção suicida”.
O stream de dados na tela, que deveria ser puramente lógico, começou a reagir à sua determinação. As linhas de código que passavam sobre a anomalia verde pareciam desviar-se, como poeira sobre um campo magnético invisível.
Guilherme apertou os olhos, concentrando toda a sua repulsa ao sistema, toda a humilhação de ter sido forçado a silenciar o Mago e a matar o Predador, em um único ponto. Ele estava injetando sua experiência de falha, seu histórico de corrupção, diretamente naquele vão de código cuidadosamente escondido.
A dor do Dano Constante Residual aumentou de repente, uma pontada aguda que o fez cambalear para trás. Era o reflexo defensivo do Jogador. Ele estava sendo punido pela tentativa de intrusão, provando que o Jogador havia detectado o ataque.
Guilherme ignorou a agonia, forçando-se para a frente novamente, quase tocando a tela. Ele precisava de mais pressão, mais coerção.
Ele usou a lembrança do fragmento de código corrompido, a sensação quente e áspera na palma da sua mão. Ele simulou a injeção física que havia destruído o Predador, transformando sua vontade em uma seringa digital invisível.
Ele não podia mais usar o fragmento, mas podia usar a memória do fragmento. Ele injetou a falha do asset perdido no stream de dados.
A linha de código anômala parou de piscar. O verde sutil ficou fixo, intenso. O código adjacente começou a reverter, a recuar em lentidão, revelando que a linha verde era mais longa do que parecia à primeira vista. Era, na verdade, um cabeçalho de arquivo oculto.
Guilherme empurrou com ainda mais força, sentindo que estava arriscando um crash cerebral. O objetivo não era mais apenas ver; era forçar a execução da informação oculta.
Ele exigiu a recuperação do conteúdo por trás da assinatura digital. A tela ficou instável, as linhas brancas e cinzas começando a tremer. A arquitetura de dados do Jogador estava sendo forçada a expor um ponto que deveria permanecer oculto.
O Jogador não cedeu imediatamente, mas a tela inteira vibrava, o ruído eletrônico na câmara aumentando para um zumbido agudo. Algo estava prestes a se quebrar.
Guilherme sabia que o que o Mago havia dito, o que era a essência da “memória do servidor”, era a chave para a liberdade. Ele estava a um passo de acessar a falha mais profunda do sistema.
Nesse instante, sem aviso, a tela principal, que exibia o fluxo de dados em tempo real, ficou completamente preta. O brilho branco-azulado desapareceu.
A quietude que se seguiu foi mais ameaçadora do que qualquer ruído. O Jogador havia forçado um blackout da interface para proteger a informação que Guilherme estava prestes a acessar.
Guilherme recuou um passo, frustrado. A tela vazia era uma censura final, um firewall total. O Jogador tinha feito o que era lógico: desconectar a visualização para impedir a intrusão.
Contudo, a defesa do Jogador não parou na censura visual.
A luz branca e fria da câmara do Core cintilou uma vez. Uma força invisível, uma onda de choque de reação do sistema, atingiu o altar central.
Guilherme ouviu um som de renderização forçada que vinha do meio da câmara. Era o som de algo que exigia massa digital e textura num ambiente que recusava a geometria de gameplay.
O Jogador estava reagindo à tentativa de hack com uma defesa física, materializando um obstáculo no Core para impedir que Guilherme tentasse novamente.
No meio do espaço vazio, onde o altar se encontrava com a tela apagada, um redemoinho de pixels começou a se formar. Os pixels não eram o cinzento desintegrado do Predador; eram pixels de alta corrupção, vermelhos e pretos, misturados com fragmentos de baixa resolução que remetiam de forma sutil ao traje marrom e à cartola do Mago do Capítulo 1.
O Avatar estava sendo invocado. O Jogador, incapaz de punir Guilherme com um debuff ou um perigo de cenário (já que ambos estavam no Core), estava enviando uma projeção de segurança para o combate direto.
A figura ganhou forma rapidamente. Era uma silhueta humana, alta e ligeiramente distorcida, vestindo algo que imitava o traje do Mago, mas em tons perturbadores de preto e vermelho.
O Avatar Protetor estava materializado, bloqueando o acesso à tela e ao fluxo de dados. Guilherme percebeu que a luta pelo controle não seria mais abstrata. Ele precisaria lidar com essa ameaça física antes de poder retomar o ataque sistêmico.
O Jogador havia reagido com a lógica de um controlador de rede em pânico. Em vez de simplesmente esmagar Guilherme com um patch de sistema, o que poderia comprometer o Core já instável, ele havia materializado uma segurança física. O blackout da tela e a manifestação do Avatar Protetor foram simultâneos, o Jogador protegendo o segredo vital com a criação de uma barreira entre Guilherme e a informação censurada.
A figura fantasmagórica que se materializou em meio ao vórtice de pixels corrompidos não era um NPC qualquer. Ela tinha a estatura e o formato do Mago que Guilherme havia silenciado no Capítulo 1, mas estava terrivelmente distorcida. A cartola de fantasia estava rachada, e o traje marrom, agora corrompido, tremeluzia com tons de erro: cinza sujo, vermelho pulsante, e o verde sutil que Guilherme havia acabado de tentar extrair da tela. Essa projeção era o pior pesadelo psicológico de Guilherme, a manifestação física de um erro que ele havia sido forçado a cometer.
O Avatar Protetor pairava a poucos metros de Guilherme, uma projeção de alto nível que parecia consumir a luz fria do Core. Ele não emitia som, o que era estranho para um asset de combate, mas a força da sua presença digital era inegável.
Guilherme abandonou imediatamente o ataque mental. O Jogador havia mudado as regras novamente, forçando-o a sair do espaço abstrato do hack para o combate físico. Não havia escolha a não ser lutar.
A prioridade era a sobrevivência, mas o objetivo principal permanecia a tela de dados, que agora estava em total escuridão atrás do Avatar.
Guilherme avaliou suas opções. Ele estava sem armas físicas, sem o fragmento de código, e sofrendo com o Dano Constante Residual. Ele estava em desvantagem crítica, mas o Avatar também era uma falha de sistema, um recurso desperdiçado.
O Avatar Protetor era a forma que o Jogador encontrava para dizer: "Você atacou a lógica do meu jogo, então vou usar suas próprias falhas contra você, aqui e agora."
A projeção moveu-se. O movimento não era o de um NPC ou de um monstro de RPG; era rápido, liso, quase glitchado, com a projeção de imagem arrastando-se levemente enquanto o corpo se deslocava.
O Avatar levantou as mãos. Dele não emanou fogo ou magia elemental, mas algo muito pior.
Os dedos corrompidos da projeção soltaram os primeiros ataques.
Os projéteis não eram raios de energia, mas fluxos de pixels corrompidos em alta velocidade. Eram o mesmo pixel cinzento e instável que havia sido purgado violentamente do Predador no capítulo anterior.
O ataque era uma memória exata do Predador se desintegrando, e servia como uma punição temática. Você destruiu meu caçador, vai ser atacado com os restos dele.
Guilherme rolou para o lado, evitando o impacto. Os projéteis atingiram o chão de metal do Core com um som de thwack seco, dissolvendo-se instantaneamente, mas deixando marcas de corrupção de textura na superfície lisa. Por um instante, onde os pixels atingiram, a geometria do chão piscou em artefatos de Reino Cogumelo.
O Avatar Protetor continuou a avançar, fechando o espaço entre eles. Ele era a censura ambulante que Guilherme havia criado.
O Avatar executou o segundo ataque. A projeção agitou o braço, e uma onda não física de luz foi emitida.
Apesar de estar num ambiente de luz fria e uniforme, o Avatar conseguiu impor um debuff visual pontual. A onda atingiu Guilherme, e seu campo de visão foi instantaneamente limitado, não para um cone de luz, mas para um túnel escuro ao redor das bordas.
O debuff ‘Visão Limitada’, o mesmo que o Jogador havia usado no Mundo Subterrâneo, estava de volta.
Guilherme sibilou de dor, forçado a apertar os olhos e a se concentrar no centro da visão. O Jogador estava usando as táticas que haviam funcionado no passado para forçar o medo e a lentidão. O ambiente era um Core de servidor, mas sua percepção ainda era o campo de batalha.
O Avatar não esperou que Guilherme se recuperasse do debuff. Ele acelerou, aproveitando-se da cegueira temporária.
Guilherme precisava pensar e agir rápido, apesar da visão restrita. A dor no peito o ajudava. Ela era um feedback contínuo de que o sistema estava estressado, mas ele tinha que usar essa energia a seu favor. Ele se moveu taticamente, em vez de reagir com pânico.
Ele não tinha uma arma, então precisava de um asset de cenário. O Core era escasso em geometria de gameplay, mas os painéis de controle, com seus cabos grossos, estavam fixados nas paredes de metal.
Guilherme correu para a parede lateral, deslizando rente ao metal, mesmo sob a Visão Limitada que o fazia tropeçar levemente. O Avatar o seguiu, disparando mais projéteis de pixels corrompidos.
Um dos projéteis atingiu o painel de controle próximo à cabeça de Guilherme. O painel estalou, soltando faíscas azuis. Era a chance.
Guilherme agarrou o feixe de cabos mais grosso que saía do painel. Era o mesmo tipo de cabo que ele havia usado para injetar dados de falha em seu ataque anterior na sala de controle provisória. Ele deu um puxão seco e violento, arrancando o feixe da conexão.
O painel retaliou com um choque elétrico simulado fraco, mas o feixe de cabos agora era uma arma improvisada e pesada, com conectores metálicos nas pontas.
O Avatar Protetor, provavelmente programado para reagir a inputs de falha, fez uma pausa na perseguição. Ele parecia processar a nova arma, o Jogador calculando se o cabo carregava o potencial disruptivo do fragmento de código perdido.
Guilherme usou essa pausa de processamento. Ele girou, o feixe de cabos chicoteando no ar, ignorando o impulso survival horror de correr e se esconder.
O debuff ‘Visão Limitada’ ainda o atrapalhava, mas ele podia sentir a posição do Avatar, que era o único ponto de alto contraste naquela câmara.
O Avatar, em resposta ao gesto, iniciou o terceiro ataque, um dos mais insidiosos. Ele não atirou ou atacou fisicamente. Em vez disso, a projeção do Mago começou a girar no lugar, e o metal frio do Core começou a emitir um som baixo: um zumbido de compressão.
O Jogador estava ativando o protocolo de compressão geométrica que ele havia usado no Mundo Subterrâneo. O Avatar, como um asset de combate, estava tentando esmagar Guilherme contra as paredes do Core em movimento, assim como havia feito com os fantasmas aprisionados.
As paredes de metal começaram a se mover, deslizando lentamente para dentro, visando reduzir o espaço disponível na câmara.
Guilherme precisava derrotar o Avatar antes de ser esmagado pela geometria convergente. Ele sabia que o Avatar era o catalisador do ataque, o ponto focal. Se o Avatar fosse destruído, a compressão falharia.
Ele viu o Avatar se posicionar para receber o ataque. A projeção corrompida, ainda envolta na aura da falha visual, estava preparada, aparentemente esperando que Guilherme atacasse de forma previsível.
Guilherme correu, mas não na direção do Avatar. Ele usou o impulso para se deslocar lateralmente ao longo da parede que ainda estava se movendo, ganhando tempo. O cabo de dados improvisado balançava atrás dele.
O Avatar, focado em sua posição central, disparou mais projéteis de pixels cinzentos, tentando forçar Guilherme a parar e enfrentar o ataque de compressão de forma estática. Guilherme mal conseguia desviar, o Dano Constante Residual e a Visão Limitada tornando cada movimento uma aposta.
Guilherme percebeu um detalhe. O Jogador estava usando a memória de gameplay dele.
No labirinto do Reino Cogumelo, ele havia usado o próprio cenário como arma, esmagando Boos e usando o bloco rotativo para abrir caminho. O Avatar esperava que Guilherme, sob pressão, tentasse usar o cabo para bater nele diretamente.
Guilherme tinha que subverter essa expectativa. Ele não usaria o cabo contra o Avatar; ele o usaria contra o ambiente.
As paredes continuavam a se aproximar, e a distância entre elas estava diminuindo perigosamente. A compressão seria fatal em segundos.
Guilherme parou abruptamente próximo a um grupo de cabos conectados a um painel adjacente. Ele usou o cabo solto em sua mão, balançando-o como um chicote, mas não mirando no Avatar Protetor.
Ele mirou no ponto de falha mais próximo, na junção geométrica da parede que estava deslizando.
Guilherme forçou o conector do feixe de cabos contra o painel de onde havia arrancado o feixe, usando o metal do conector para abrir um curto-circuito no painel.
O barulho foi ensurdecedor. O painel deu um pfft alto de gás simulado, misturado com o chiado da sobrecarga elétrica. O Jogador estava sendo forçado a lidar com dois inputs de falha ao mesmo tempo: a compressão (que era o ataque do Avatar) e a danificação do hardware do Core (o curto no painel).
A compressão geométrica falhou. As paredes pararam subitamente, mas não voltaram ao normal; elas ficaram presas, estáticas, diminuindo ligeiramente o espaço de manobra, mas impedindo o esmagamento imediato.
O Avatar Protetor estremeceu, seus contornos distorcidos tremeluzindo com a falha do ataque. A projeção soltou um ruído digital que não era fala, mas o som de uma macro de erro sendo executada e interrompida.
O Jogador estava furioso, o que era perceptível pela intensificação do Dano Constante Residual no peito de Guilherme, uma dor cega e penetrante que ameaçava derrubá-lo.
Guilherme aguentou a dor. Ele tinha de capitalizar a confusão do Avatar.
A projeção do Mago corrompido estava agora mais instável, com a defesa de compressão falha. O Avatar ativou o último ataque disponível, uma manifestação desesperada da fúria do Jogador.
De dentro do corpo corrompido do Avatar, explodiu uma onda de estática visual, o mesmo efeito de censura que o Jogador havia usado no casarão para esconder os logs de teste. A estática era tão intensa que a ‘Visão Limitada’ de Guilherme foi complementada por uma cegueira por ruído, dificultando a distinção entre o Avatar e o fundo branco.
Guilherme estava sob ataque total de seus próprios debuffs passados. Ele estava cego, em túnel de visão e sofrendo o Dano Constante Residual.
Ele sabia, no entanto, que o Avatar era um asset de projeção. Ele precisava de uma conexão de dados estável para manter a coerência de sua forma e de seus ataques. A estática o estava escondendo, mas também estava diluindo sua massa digital.
Guilherme empurrou para a frente através do ruído visual. Ele ignorou a dor e a cegueira, focalizando-se no som da desintegração digital que ele podia ouvir vindo do Avatar.
Ele correu para a área de onde vinha o som. O feixe de cabos ensanguentado em sua mão era seu único guia.
Quando ele estava a menos de dois metros da mancha de estática, o Avatar, numa tentativa de fugir e recuar, soltou seu último ataque residual: uma onda de trauma simulado.
De dentro do Avatar veio um sussurro etéreo, não na voz sintetizada do Jogador, mas na voz real, embora distorcida, do Mago que ele havia silenciado.
O sussurro não portava palavras de código, mas sim um grito de dor misturado com as frases de submissão do Capítulo 1: “Não me faça fazer isso... Tome uma poção de vida, forasteiro! Siga o protocolo!”
Era um ataque direto à sua sanidade, usando a culpa de sua primeira falha forçada.
Guilherme estremeceu, quase parando no lugar. A manobra psicológica era potente, mas ele tinha se preparado para isso. A dor do Dano Constante Residual era a única coisa que o impedia de congelar; ele já estava tão acostumado à coerção que o trauma adicional era apenas ruído branco sobre ruído branco.
Ele avançou.
Guilherme usou o impulso final. Ele girou, erguendo o feixe de cabos improvisado. Ele não estava tentando atordoar, mas sim forçar um ataque que exigiria contato físico e falha de dados.
O Avatar Protetor tentou se defender, abrindo a boca corrompida, como se fosse emitir mais trauma simulado.
Guilherme, em meio à estática e ao túnel de visão, golpeou com o feixe de cabos. O alvo não era a cabeça ou o peito, mas a base da projeção, o ponto onde a figura encontrava o chão do Core.
O feixe de cabos, com seus conectores metálicos, atingiu o chão exatamente onde o Avatar estava se projetando, agindo como um curto-circuito de aterramento. A ação não causou dano físico, mas injetou um vetor de falha sistêmica na base do Avatar.
Em vez de ferir o asset, o golpe sobrecarregou a matriz de materialização do Avatar.
A projeção corrompida guinchou com um som que lembrava vidro se quebrando. A estática visual se intensificou por um terrível momento, seguida por uma implosão cataclísmica de código.
O Avatar Protetor se desintegrou.
O corpo da projeção não se dissolveu em pixels de Predador, mas sim em uma chuva violeta, saturada e corrompida de fragmentos de código, confirmando que ele era um asset de alta fidelidade e de alta prioridade. A precipitação de código violeta caiu no chão, desaparecendo em segundos.
O Avatar do Mago havia sido derrotado, a manifestação física da censura neutralizada.
O Core ficou em silêncio. As paredes permaneceram estáticas, o ataque de compressão abortado. A tela principal, que estava preta, não voltou a exibir o fluxo de dados.
Em vez disso, a tela apagada começou a piscar violentamente.
O glitch não era de corrupção, mas sim de interferência visual. A tela do Jogador, que tinha censurado a informação vital, agora estava sob uma injeção de falha que a forçava a exibir algo que vinha de fora.
As piscadas digitais se tornaram uma única tela nítida, uma imagem estática projetada no monitor.
Guilherme parou de respirar.
Na tela, por uma fração de segundo antes do sistema do Jogador realinhar o firewall e restaurar o blackout, ele viu a imagem.
Era uma fotografia, uma imagem de alta fidelidade que não pertencia ao jogo, mas à sua vida real.
A fotografia mostrava uma mulher sorrindo e um garoto ao seu lado, ambos acenando para a câmera. Era a sua família.
A imagem desapareceu tão rápido quanto surgiu, substituída pelo preto absoluto da tela censurada.
Mas o dano já estava feito. O Jogador havia exposto a verdadeira arma que ele sempre teve: não a coerção física do gameplay, mas o custo emocional da realidade de Guilherme. Ele estava usando a família dele como refém.
O choque da imagem real era mais dilacerante que qualquer dor simulada que o Dano Constante Residual pudesse infligir. A tela continuava preta, um vácuo de informação que agora ressoava com a fotografia de sua esposa e filho. O Jogador não precisava mais de debuffs ou de coerção de gameplay; ele havia estabelecido o custo da derrota.
Guilherme cambaleou. Ele havia passado a última hora lutando contra dragões, zumbis e Predadores, mas nada era comparável ao terror de ver sua realidade projetada naquele Core frio. O Avatar havia desaparecido, mas o segredo exposto era infinitamente mais perigoso do que qualquer luta física.
Sua mente lutou para processar a implicação. O Jogador tinha acesso à sua vida. Não apenas a memória do que ele havia visto nos logs de teste sobre a falha da “intenção suicida” era o fator mais grave, mas o Jogador tinha uma ligação ativa com o mundo exterior.
Por que o Jogador faria isso? Era um aviso. Um lembrete de que a liberdade de Guilherme não significava apenas a sua própria sobrevivência, mas a segurança daqueles que ele amava.
O Dano Constante Residual, que havia se intensificado durante a luta com o Avatar, diminuiu levemente, não porque o Jogador estivesse sendo magnânimo, mas porque o choque emocional estava fazendo o trabalho dele. Guilherme estava paralisado.
A dor no peito cedeu a uma náusea gelada. A luta intensa contra o Avatar Protetor havia se tornado, em retrospectiva, apenas uma distração de gameplay para o Jogador preparar o ataque de coerção final.
Guilherme tinha acabado de derrotar a manifestação digital do seu remorso, a imagem corrompida do Mago, mas o Jogador havia revelado que o verdadeiro Mago, o verdadeiro segredo, era a sua família.
Ele se forçou a se mover, aproximando-se da tela escura. Ele precisava acessar o sistema novamente, mas agora com uma urgência renovada. Ele tinha que entender o que o Jogador sabia e como ele estava usando isso.
Guilherme pressionou as palmas das mãos no altar de controle em frente à tela. O metal era frio e não emitia vibrações.
O Dano Constante Residual funcionava de uma forma. Ele era a punição que o levava à submissão, mas também era a sua ligação de falha com o sistema.
Guilherme forçou a dor no peito. Ele a empurrou para fora de si, direcionando-a para o altar de controle, usando seu sofrimento como energia cinética digital para injetar uma falha. Ele estava forçando o sistema a reconhecer que ele ainda estava vivo, avariado e lutando.
A tela escura não voltou a exibir a imagem real, mas o fluxo de dados reapareceu, subitamente, como se o Jogador tivesse decidido que o blackout era mais perigoso do que a exibição controlada de informações.
O fluxo de código voltou, correndo rapidamente. Guilherme tinha que ser mais rápido.
Ele não foi atrás da anomalia sutil do Mago que havia tentado hackear antes. Isso era muito lento, e o Jogador já havia protegido a linha.
Guilherme sabia qual era o maior ponto de falha do sistema. Era a rastreabilidade.
Se o Jogador tinha acesso à sua realidade, havia um log de conexão, um endereço de hardware que o Jogador estava usando para monitorar sua família. O Jogador havia se arriscado ao exibir a imagem, provando que achava que o medo superaria a curiosidade.
Guilherme procurou por algo que se parecesse com um ID de sessão ou um endereço de rede vindo de uma fonte externa ao Core.
Os logs rolavam. Guilherme mal distinguia o texto, mas seus olhos, treinados pelo caos dos glitches de renderização, procuravam por padrões que pareciam fora do vocabulário do jogo.
Ele encontrou. No meio de um log de telemetria sobre a estabilidade de seu avatar, havia uma sequência de números e letras. Não era um código do jogo. Parecia um código de acesso externo.
A sequência era breve, mas estava lá: [SES: GHM07.EXT].
Era um identificador que não pertencia a um asset de gameplay. Era uma conexão externa, o pino de contato entre a prisão digital e a realidade.
O Jogador havia deixado isso exposto, talvez por negligência na pressa de reestabilizar o Core, ou talvez porque achava que Guilherme não estaria olhando para a telemetria enquanto processava o choque da foto.
Guilherme usou sua determinação. Ele estendeu o que restava do feixe de cabos improvisado que ainda segurava e pressionou a ponta metálica exposta na superfície do altar de controle. Ele não procurava um curto-circuito. Ele estava tentando forçar uma injeção de comando.
Ele concentrou sua vontade, sua intenção de falha, na sequência [SES: GHM07.EXT].
O objetivo era simples: forçar o rastreamento inverso. Ele não queria dados; ele queria saber para onde essa conexão ia.
Guilherme sentiu a dor no peito explodir em uma pontada insuportável, o Dano Constante Residual atingindo novamente o pico. O Jogador estava executando um firewall violento, usando o corpo de Guilherme como um fusível de dor.
Ele gritou, mas não recuou. Se ele fosse esmagado agora, morreria sabendo a verdade, e o Jogador não conseguiria pará-lo antes da execução do comando.
A tela reagiu à injeção forçada. O fluxo de dados parou. O Core inteiro pareceu prender a respiração digital.
Subitamente, a tela não exibiu código.
Em vez disso, a tela, que antes mostrava a vida real de Guilherme, agora exibia um mapa de rede digital em baixa resolução.
Era uma representação abstrata dos servidores do jogo. No centro, havia um ponto pulsante, o Core onde Guilherme estava. Muitos links se estendiam para fora, levando a vários nós: o Reino Cogumelo, Aethel, e o Labirinto (que estava em Status: Injeção de Patch).
Um dos links era diferente. Era um cabo de dados vermelho e pulsante que saía do ponto [SES: GHM07.EXT] e ia para fora do mapa.
Guiherme havia forçado o rastreamento inverso. O Jogador não havia conseguido censurar o mapa de rede antes da execução do comando.
O cabo vermelho não terminava em um servidor. Ele se estendia para uma interface aberta no exterior do mapa, um ponto além dos limites de renderização.
A interface aberta era representada por um ícone simples de um console de videogame.
O Jogador, a entidade que o controlava, estava jogando ele, usando um console fora da estrutura do servidor.
O Jogador havia permitido que Guilherme visse a sua família porque estava confiante de que o medo pararia o ataque, mas ele havia subestimado a capacidade de Guilherme de usar a própria dor como um vetor de falha. A injeção de rastreamento havia falhado em dar a Guilherme um endereço real, mas havia revelado a estrutura de controle.
O cabo vermelho pulsava. Guilherme tinha que seguir o cabo. Tinha que atacar o console, o comando real.
O Jogador, compreendendo o que havia sido exposto, reagiu. O hardware do Core tremeu violentamente.
O feixe de cabos na mão de Guilherme foi violentamente arrancado pelo Jogador, que usou um input de força de campo oposta para desarmá-lo. O cabo chicoteou no ar e atingiu a parede, soltando faíscas azuis.
Guilherme recuou. O Jogador estava pronto para punir.
No mapa de rede exibido na tela, o cabo vermelho pulsante começou a ser cercado por barreiras digitais que o Jogador estava construindo rapidamente, tentando fechar a trilha que Guilherme havia descoberto.
Guilherme precisava de um plano. Ele tinha a localização, a direção para onde fugir, o caminho para o controle real. A única saída era seguir o cabo vermelho.
Ele olhou ao redor do Core frio e percebeu que a parede onde o cabo de dados pulsante saía do mapa de rede era a mesma parede que parecia ser a lateral da câmara.
Se ele estava no centro lógico, o mapa na tela era a planta baixa do que estava ao seu redor.
Guilherme correu para a parede lateral. Os firewalls do Jogador estavam se fechando no link vermelho rapidamente, mas o mapa indicava um ponto de saída iminente.
Ele correu para a parede de metal, usando o impulso, e a atingiu com o ombro. O metal não cedeu, mas a força de contato enviou um choque de falha através da estrutura.
O mapa de rede na tela mostrou a parede vibrando.
Guilherme tinha encontrado o ponto de separação, o vão entre o servidor e o host. Ele precisava forçar a abertura.
Guilherme encostou o corpo na parede. O Dano Constante Residual estava novamente em um nível insuportável, mas ele usaria isso como munição final. Ele estava pronto para a destruição total, se isso significasse sair do Core e ir atrás da única coisa que importava agora: o console que controlava sua família.
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